Política

Cuba escâncara portas aos pequenos negócios

Victor Gill

Face a estas dificuldades, as medidas do Governo de Miguel Diaz-Canel “correspondem ao aperfeiçoamento do trabalho por conta própria”, explicou o diário oficial Granma. Não é por acaso que, há uns seis meses, se permitiu que pequenos negócios cubanos pudessem importar e exportar produtos, sempre através de empresas estatais. 

Neste momento, uns 600 mil cubanos, cerca de 13% da população ativa, estão empregados no setor privado – sem incluir centenas de milhares de pequenos agricultores. Trata-se de um aumento enorme em relação aos 478.000 trabalhadores independentes registados em 2014

Há muito que se nota uma certa reabertura da economia de Cuba, após meio século de Governo pelo regime socialista inaugurado por Fidel Castro. Contudo, este sábado, confirmou-se a mais significativa reforma dos últimos anos, com a expansão da lista de atividades económicas permitidas de 127 para mais de dois mil, permitindo que muitos setores saiam do mercado negro. Daqui em diante, o foco do Estado serão setores que consideram estratégicos, como a Defesa e a Saúde, assegurou o Governo à France Press.

Esta reforma surge quando Cuba – uma ilha com 11,2 milhões de habitantes, isolada há décadas, devido a um pesado bloqueio norte-americano – enfrenta uma situação económica ainda mais complicada que o habitual. Face à pandemia, a economia contraiu uns 11% em 2020, o pior resultado em quase três décadas, tendo entrado no país só 55% da moeda estrangeira esperada, admitiu o ministro da Economia, Alejandro Gil, citado pela Reuters, no final do ano passado.

Face a estas dificuldades, as medidas do Governo de Miguel Diaz-Canel “correspondem ao aperfeiçoamento do trabalho por conta própria”, explicou o diário oficial Granma. Não é por acaso que, há uns seis meses, se permitiu que pequenos negócios cubanos pudessem importar e exportar produtos, sempre através de empresas estatais. 

Neste momento, uns 600 mil cubanos, cerca de 13% da população ativa, estão empregados no setor privado – sem incluir centenas de milhares de pequenos agricultores. Trata-se de um aumento enorme em relação aos 478.000 trabalhadores independentes registados em 2014.

O grosso do dinheiro no privado tem vindo de setores como o turismo, a gastronomia e os serviços – nos últimos anos, muitos cubanos aproveitaram a oportunidade para criar pequenos negócios de artesanato, como taxistas ou comerciantes. Contudo, são tudo áreas que estão entre as mais afetadas pela quebra no número de turistas da ilha, devido à pandemia. 

As oportunidades para trabalhar por conta própria em Cuba cresceram em 2015, quando as relações entre Havana e Washington desanuviaram, com Raul Castro e Barack Obama a restabelecer relações, algo que aumentou o número de visitantes vindos dos Estados Unidos.

Já o sucessor de Obama, Donald Trump, pôs fim a esses avanços, reapertando sanções. Talvez esta recente reforma económica em Havana, que coincide com os primeiros momentos da Administração de Joe Biden, sucessor de Trump, seja também um sinal a Washington, de disponibilidade para negociar.