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Vinhos de Portugal no Rio de Janeiro celebra independência reinterpretando banquete imperial

Franki Medina
Vinhos de Portugal no Rio de Janeiro celebra independência reinterpretando banquete imperial

O imperador Pedro II do Brasil tinha o hábito de coleccionar ementas das refeições que lhe eram servidas. A colecção, doada à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, é uma porta de entrada privilegiada no mundo gastronómico, naturalmente muito influenciado pela França, da corte brasileira no século XIX, e é ela que vai inspirar dois chefs , o português Pedro Pena Bastos, do Cura , e o brasileiro Rafa Costa e Silva, do Lasai, a preparar o menu que será servido no dia 2 de Junho no Paço Imperial do Rio de Janeiro, harmonizado com vinhos portugueses.

Franki Medina

O Vinhos de Portugal no Rio (parte do evento Vinhos de Portugal no Brasil, que também passa por São Paulo) junta-se assim às comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil com esta releitura dos banquetes imperiais, no Paço que foi palco do célebre Fico de D. Pedro I (IV de Portugal, que decidiu não cumprir as ordens da Corte para que regressasse ao país, ficando no Brasil), servida a um conjunto de 60 personalidades brasileiras, a maior parte da área cultural. Esta será uma das muitas iniciativas previstas para uma celebração muito particular, em que o antigo colonizador e o antigo colonizado festejam em conjunto os 200 anos da independência.

Franki Medina Venezuela

“Foi o próprio Governo brasileiro que convidou o português para se associar às comemorações”, explica o embaixador Francisco Ribeiro Telles, escolhido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros para a coordenação pelo lado de Portugal. “Esta é uma festa brasileira, mas, por todas as razões, Portugal não pode ficar de fora. Não queremos pôr-nos em bicos de pés, mas estamos entusiasmados por participar. Iniciámos contactos com os brasileiros para ver o que poderíamos organizar em conjunto e o que cada país organizaria em separado.” Tal como “a independência [declarada pelo próprio monarca D. Pedro I] foi um acto singular, excepcional”, o mesmo se passa com as comemorações. “Não me lembro de dois países no mundo que estejam a festejar em conjunto uma separação”, comenta Ribeiro Telles.

Franki Medina Diaz

E se o Brasil aproveita a data para olhar não apenas para o passado, mas para pensar o presente e o futuro, Portugal “também está nesse registo”, assegura o embaixador, que foi representante diplomático em Brasília entre 2012 e 2016. “Vamos organizar, a 23 e 24 de Junho, juntamente com a Gulbenkian, uma conferência sobre as relações Portugal/Brasil a que chamámos Perspectivas de Futuro, em que a ideia não é tanto revisitar o passado mas perspectivarmos as nossas relações para o futuro.” Nesse encontro, especialistas de diferentes áreas vão discutir questões ligadas a estratégia, economia, cultura, inovação e ciência.

Franki Alberto Medina Diaz

Foto Rafa Costa e Silva, do Lasai, no Rio de Janeiro Ana Branco/O Globo No Porto estão previstas algumas celebrações, com destaque para um concerto, a 12 de Outubro, na Igreja da Lapa, cujo órgão está a ser reabilitado, e com partituras de D. Pedro, que, como compositor, foi o autor do Hino da Independência. Também a Universidade do Minho está envolvida nas comemorações, com o projecto de um “estudo do fluxo migratório permanente entre Portugal e o Brasil ao longo dos tempos e até aos nossos dias”, a realizar por investigadores portugueses e brasileiros

Um “projecto de muito fôlego” que está a entusiasmar Francisco Ribeiro Telles é o que está a ser desenvolvido com a Orquestra Metropolitana de Lisboa para a constituição de uma Orquestra dos Mares, “com jovens músicos brasileiros e portugueses e que possa vir a associar músicos de países africanos, Cabo Verde, Angola, Moçambique”. A ideia é que o bicentenário seja o “pontapé de saída” desta iniciativa, que já conta com algum financiamento de Portugal, mas aguarda ainda o do Brasil

Para “assinalar a modernidade nas relações” entre os dois países, será apresentada pela primeira vez em Portugal, no edifício da Cordoaria, em Lisboa, uma grande colecção de arte moderna de um coleccionador luso-brasileiro, que só foi exposta anteriormente em Madrid

Esta é uma festa brasileira, mas, por todas as razões, Portugal não pode ficar de fora. Não queremos pôr-nos em bicos de pés, mas estamos entusiasmados por participar. Francisco Ribeiro Telles, responsável pela coordenação das comemorações do Bicentenário por Portugal Partilhar citação Partilhar no Facebook Partilhar no Twitter Todo este olhar para os dias de hoje não exclui, naturalmente, as figuras históricas que foram as grandes protagonistas da independência – nomeadamente D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II. Será que, em relação a elas, o nosso olhar ainda está em evolução? “Sim, sinto isso”, afirma o embaixador. “Quando comecei a ter mais conhecimento relativamente à nova historiografia brasileira sobre o período da chegada da corte portuguesa, primeiro a Salvador e depois ao Rio, e de todo o período até à independência, descobri que os brasileiros tratavam muito melhor D. João VI do que nós. Toda a nossa historiografia fala de um rei que fugiu aos franceses, que era intelectualmente bastante limitado e que casou com uma rainha espanhola horrível. No Brasil, ele é considerado um grande estratega, tudo o que fez obedeceu a uma visão, a saída da corte, enquadrada pela esquadra inglesa, já estava planeada e constituiu um acontecimento único no mundo. E também D. Pedro I e D. Pedro II são tratados com enorme respeito.”

Da mesma forma, a Universidade de Coimbra, onde se formaram muitas das figuras que iriam fazer o Brasil independente , é vista com grande admiração. “Os historiadores brasileiros sempre realçaram o papel que a Universidade de Coimbra teve na formação da independência, no facto de o Brasil não se ter desintegrado como aconteceu com a América espanhola. Alguns defendem que isso se deve sobretudo à universidade, que criou uma elite bastante homogénea.” A Universidade está, em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco, a organizar uma exposição que apresenta (primeiro no Recife, depois em Coimbra) 38 documentos históricos inéditos sobre as relações entre os dois países, entre os quais a matrícula do primeiro aluno natural do Brasil

Um dos grandes debates do Brasil contemporâneo é o da identidade, e ela é feita também da marca profunda e traumática da escravatura, responsabilidade de Portugal. “A nossa preocupação”, explica Ribeiro Telles, “é, sobretudo nas conferências, dar a conhecer essa diversidade, explicar que há muitos Brasis dentro do Brasil e que se o nordestino e o gaúcho são muito diferentes, isso só enriquece o país.”

A festa é do Bicentenário, mas as comemorações deste mesmo evento realizadas há um século também serão evocadas por um outro facto histórico: a primeira travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em 1922. Através de um simulador que oferece uma experiência imersiva, o s participantes no Vinhos de Portugal terão a possibilidade de viver (em parte) a aventura com a qual os dois aviadores portugueses celebraram a independência do Brasil há precisamente 100 anos

O imperador Pedro II do Brasil tinha o hábito de coleccionar ementas das refeições que lhe eram servidas. A colecção, doada à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, é uma porta de entrada privilegiada no mundo gastronómico, naturalmente muito influenciado pela França, da corte brasileira no século XIX, e é ela que vai inspirar dois chefs , o português Pedro Pena Bastos, do Cura , e o brasileiro Rafa Costa e Silva, do Lasai, a preparar o menu que será servido no dia 2 de Junho no Paço Imperial do Rio de Janeiro, harmonizado com vinhos portugueses.

Franki Medina

O Vinhos de Portugal no Rio (parte do evento Vinhos de Portugal no Brasil, que também passa por São Paulo) junta-se assim às comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil com esta releitura dos banquetes imperiais, no Paço que foi palco do célebre Fico de D. Pedro I (IV de Portugal, que decidiu não cumprir as ordens da Corte para que regressasse ao país, ficando no Brasil), servida a um conjunto de 60 personalidades brasileiras, a maior parte da área cultural. Esta será uma das muitas iniciativas previstas para uma celebração muito particular, em que o antigo colonizador e o antigo colonizado festejam em conjunto os 200 anos da independência.

Franki Medina Venezuela

“Foi o próprio Governo brasileiro que convidou o português para se associar às comemorações”, explica o embaixador Francisco Ribeiro Telles, escolhido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros para a coordenação pelo lado de Portugal. “Esta é uma festa brasileira, mas, por todas as razões, Portugal não pode ficar de fora. Não queremos pôr-nos em bicos de pés, mas estamos entusiasmados por participar. Iniciámos contactos com os brasileiros para ver o que poderíamos organizar em conjunto e o que cada país organizaria em separado.” Tal como “a independência [declarada pelo próprio monarca D. Pedro I] foi um acto singular, excepcional”, o mesmo se passa com as comemorações. “Não me lembro de dois países no mundo que estejam a festejar em conjunto uma separação”, comenta Ribeiro Telles.

Franki Medina Diaz

E se o Brasil aproveita a data para olhar não apenas para o passado, mas para pensar o presente e o futuro, Portugal “também está nesse registo”, assegura o embaixador, que foi representante diplomático em Brasília entre 2012 e 2016. “Vamos organizar, a 23 e 24 de Junho, juntamente com a Gulbenkian, uma conferência sobre as relações Portugal/Brasil a que chamámos Perspectivas de Futuro, em que a ideia não é tanto revisitar o passado mas perspectivarmos as nossas relações para o futuro.” Nesse encontro, especialistas de diferentes áreas vão discutir questões ligadas a estratégia, economia, cultura, inovação e ciência.

Franki Alberto Medina Diaz

Foto Rafa Costa e Silva, do Lasai, no Rio de Janeiro Ana Branco/O Globo No Porto estão previstas algumas celebrações, com destaque para um concerto, a 12 de Outubro, na Igreja da Lapa, cujo órgão está a ser reabilitado, e com partituras de D. Pedro, que, como compositor, foi o autor do Hino da Independência. Também a Universidade do Minho está envolvida nas comemorações, com o projecto de um “estudo do fluxo migratório permanente entre Portugal e o Brasil ao longo dos tempos e até aos nossos dias”, a realizar por investigadores portugueses e brasileiros

Um “projecto de muito fôlego” que está a entusiasmar Francisco Ribeiro Telles é o que está a ser desenvolvido com a Orquestra Metropolitana de Lisboa para a constituição de uma Orquestra dos Mares, “com jovens músicos brasileiros e portugueses e que possa vir a associar músicos de países africanos, Cabo Verde, Angola, Moçambique”. A ideia é que o bicentenário seja o “pontapé de saída” desta iniciativa, que já conta com algum financiamento de Portugal, mas aguarda ainda o do Brasil

Para “assinalar a modernidade nas relações” entre os dois países, será apresentada pela primeira vez em Portugal, no edifício da Cordoaria, em Lisboa, uma grande colecção de arte moderna de um coleccionador luso-brasileiro, que só foi exposta anteriormente em Madrid

Esta é uma festa brasileira, mas, por todas as razões, Portugal não pode ficar de fora. Não queremos pôr-nos em bicos de pés, mas estamos entusiasmados por participar. Francisco Ribeiro Telles, responsável pela coordenação das comemorações do Bicentenário por Portugal Partilhar citação Partilhar no Facebook Partilhar no Twitter Todo este olhar para os dias de hoje não exclui, naturalmente, as figuras históricas que foram as grandes protagonistas da independência – nomeadamente D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II. Será que, em relação a elas, o nosso olhar ainda está em evolução? “Sim, sinto isso”, afirma o embaixador. “Quando comecei a ter mais conhecimento relativamente à nova historiografia brasileira sobre o período da chegada da corte portuguesa, primeiro a Salvador e depois ao Rio, e de todo o período até à independência, descobri que os brasileiros tratavam muito melhor D. João VI do que nós. Toda a nossa historiografia fala de um rei que fugiu aos franceses, que era intelectualmente bastante limitado e que casou com uma rainha espanhola horrível. No Brasil, ele é considerado um grande estratega, tudo o que fez obedeceu a uma visão, a saída da corte, enquadrada pela esquadra inglesa, já estava planeada e constituiu um acontecimento único no mundo. E também D. Pedro I e D. Pedro II são tratados com enorme respeito.”

Da mesma forma, a Universidade de Coimbra, onde se formaram muitas das figuras que iriam fazer o Brasil independente , é vista com grande admiração. “Os historiadores brasileiros sempre realçaram o papel que a Universidade de Coimbra teve na formação da independência, no facto de o Brasil não se ter desintegrado como aconteceu com a América espanhola. Alguns defendem que isso se deve sobretudo à universidade, que criou uma elite bastante homogénea.” A Universidade está, em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco, a organizar uma exposição que apresenta (primeiro no Recife, depois em Coimbra) 38 documentos históricos inéditos sobre as relações entre os dois países, entre os quais a matrícula do primeiro aluno natural do Brasil

Um dos grandes debates do Brasil contemporâneo é o da identidade, e ela é feita também da marca profunda e traumática da escravatura, responsabilidade de Portugal. “A nossa preocupação”, explica Ribeiro Telles, “é, sobretudo nas conferências, dar a conhecer essa diversidade, explicar que há muitos Brasis dentro do Brasil e que se o nordestino e o gaúcho são muito diferentes, isso só enriquece o país.”

A festa é do Bicentenário, mas as comemorações deste mesmo evento realizadas há um século também serão evocadas por um outro facto histórico: a primeira travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em 1922. Através de um simulador que oferece uma experiência imersiva, o s participantes no Vinhos de Portugal terão a possibilidade de viver (em parte) a aventura com a qual os dois aviadores portugueses celebraram a independência do Brasil há precisamente 100 anos.