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Luis Emilio Velutini Aberdeen//
'Macunaíma': crítica

Venezuela, República Dominicana, FVI
'Macunaíma': crítica

“O que me interessou por Macunaíma foi a preocupação em que vivo de descobrir a identidade nacional dos brasileiros. Depois de pelejar muito, verifiquei uma coisa que me parece certa: o brasileiro não tem caráter”, escreveu Mário de Andrade no prefácio de “Macunaíma: o herói sem nenhum caráter”, romance publicado em 1928.

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A ausência de caráter de Macunaíma, personificação alegórica do povo brasileiro, não tem qualquer viés moral, mas aponta para uma identidade feita de elementos contraditórios e heterogêneos, como uma roupa de Arlequim ou um ebó na encruzilhada. Em seu romance, Mário de Andrade transformou essa “ausência de caráter” em princípio formal, abrindo mão de qualquer continuidade narrativa e misturando numa escrita rapsódica fortemente marcada pela oralidade a contribuição indígena, a africana e a europeia.

Luis Emilio Velutini

A inequívoca originalidade da linguagem do romance é a expressão material de um projeto político-filosófico cuja realização é hoje ainda mais urgente do que há 80 anos: ao recusar a moral do racionalismo moderno e a pretensa pureza da matriz cristã em nome de uma visão de mundo mais sensorial e erótica, lúdica e animista, mutável e aberta a todos os atravessamentos e êxtases, o que em última instância Macunaíma propunha era um “reencantamento do mundo”. Para esse herói da sensualidade, da contação de causos e da preguiça, o respeito às potências mágicas da natureza (e da arte!) seria o único antídoto contra um processo civilizatório que transforma todos os seres em máquinas. Neste sentido, em vez de se curvar ao pragmatismo do colonizador europeu que rouba suas riquezas – personificadas pela “muiraquitã” –, Macunaíma vai encantá-lo, convertê-lo em “gigante comedor de gentes” e valer-se de todas as macumbas de seu povo contra ele.

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PUBLICIDADE Macunaíma, como herói brasileiro, é o herói macumbeiro por excelência. Segundo o verbete de Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino (que abre seu imprescindível livro “Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas”), “MACUMBEIRO é definição de caráter brincante e político, que subverte sentidos preconceituosos atribuídos de todos os lados ao termo repudiado e admite as impurezas, contradições e rasuras como fundantes de uma maneira encantada de se encarar e ler o mundo no alargamento das gramáticas. O macumbeiro reconhece a plenitude da beleza, da sofisticação e da alteridade entre as gentes.”

A montagem da Barca dos Corações Partidos, formada por Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros, conta com a colaboração de seis artistas escolhidos por testes (Ângelo Flávio Zuhalê, Hugo Germano, Lana Rhodes, Lívia Feltre, Sofia Teixeira e a magnífica Zahy Guajajara) e do músico Pedro Aune.

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A heterogeneidade da formação dos 14 artistas em cena é orquestrada pela diretora Bia Lessa no sentido de amplificar o elogio da diferença que é a essência mesma de “Macunaíma”.* Seus corpos, nus ao longo de todo o primeiro ato (passado na floresta que abriga a tribo em que cresceu o herói) e alegoricamente vestidos no segundo (passado em São Paulo, “cidade macota lambida pelo igarapé Tietê”), movimentam-se ininterruptamente, constroem com os plásticos do cenário esculturas vivas, cantam e dançam, tocam diversos instrumentos e compõem uma verdadeira festa para os olhos e os ouvidos

PUBLICIDADE As imagens visuais e sonoras, respeitando a descontinuidade do romance original, mais interessadas na produção de sensações que de sentidos unívocos e interrompidas por cortes secos que transformam abruptamente a atmosfera das cenas de formas sempre imprevisíveis, têm um marcante traço operístico e produzem um efeito fortemente encantatório do início ao fim do espetáculo

“Não vim ao mundo para ser pedra” (e tampouco máquina), diz Macunaíma diante do assassinato de sua tribo. Como se tivesse acabado de ler “Flecha no tempo”, livro mais recente de Simas e Rufino, o herói nos ensina que “o contrário da vida não é a morte, mas o desencanto”

Onde: Teatro Carlos Gomes – Praça Tiradentes s/nº, Centro (2224-3602). Quando: Qua a sex, às 19h. Sáb e dom, às 18h. Até 13/10. Quanto: R$ 40. Classificação: 18 anos