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Campanha nacionalizada e apoios escondidos em Fortaleza, leia entrevistas com José Sarto e Capitão Wagner

Juan Carlos Carvallo
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Em entrevista ao GLOBO, os candidatos defendem ter “autonomia” e “independência” de Ciro e de Bolsonaro, mas acusam o adversário de fazer o oposto

BRASÍLIA — Além de ser a quinta maior cidade do país, o segundo turno em Fortaleza chama atenção por envolver figuras da política nacional. José Sarto (PDT) é o candidato do grupo político de Ciro Gomes (PDT) em seu reduto, e enfrenta Capitão Wagner (Pros), que ganhou projeção ao atuar no motim da polícia no estado em 2012 e recebeu endosso eleitoral do presidente Jair Bolsonaro, embora não tenha feito campanha usando o nome do presidente.

Em entrevista ao GLOBO, os candidatos defendem ter “autonomia” e “independência” de Ciro e de Bolsonaro, mas acusam o adversário de fazer o oposto.

Datafolha : Sarto tem 50% e Wagner 36%, aponta primeira pesquisa no 2º turno

Sarto defende que o deputado do Pros faz um “jogo duplo” escondendo o apoio de Bolsonaro para quem interessa, enquanto Wagner afirma que teve bons resultados eleitorais antes da eleição do presidente enquanto o pedetista foi escolhido pessoalmente por Ciro “em cima da hora”. Pesquisa Datafolha divulgada na noite de ontem coloca Sarto (50%) com vantagem em relação a Wagner (36%). Segundo o levantamento há ainda 10% de votos brancos e nulos e 4% de indecisos.

José Sarto: No privado, ele é Bolsonaro; no público, faz jogo duplo’ Apoiado por Ciro Gomes, candidato do PDT diz que não usa imagens do padrinho porque a campanha é ‘local’ e o grupo político é ‘impessoal’, e critica postura do rival O candidato à Prefeitura de Fortaleza do PDT, José Sarto (às dir.) Foto: Fotoarena / Akiin Nassor/Fotoarena PUBLICIDADE  

Fortaleza é uma das cidades mais desiguais do país. Como mudar esse cenário?

Nas últimas duas décadas e meia, Fortaleza cresceu de forma assustadora. O prefeito Roberto Cláudio (PDT) avançou muito nesses oito anos de gestão, entregou 25 mil casas, temos 108 mil alunos no ensino integral, mas tudo isso não avançou na mesma velocidade do crescimento da cidade. Pretendemos reduzir a desigualdade gerando emprego e renda, com uma política séria de recuperação econômica, com foco nas mulheres chefes de família, na juventude e na inclusão de jovens na escola.

PUBLICIDADE A cidade aparece em listas como das mais violentas. O que pode ser feito?

Esse cenário começou com o motim de 2012, que meu adversário liderou, e esse motim agora de fevereiro. Cresceu a militarização de partidos políticos, com o ingresso de representantes que defendem a intolerância, a imposição do medo, o motim.

Mas o crime organizado e o tráfico de drogas não seriam os motivos da insegurança?

Estou dizendo o motim junto com esses outros ingredientes — o tráfico de drogas existe, a violência existe. Mas nos motins, as forças de segurança pública deixaram as pessoas ao léu, não tinha segurança, deixaram as facções mandarem…

Mas não houve motim nos outros anos…

Não, mas teve em 2012 e agora. Aqui no Ceará, tivemos uma chacina em que mataram várias pessoas e o adversário advogava anistia. Tivemos agora um sequestro e um dos responsáveis preso era do motim. Esse pequeno grupo causou um mal que tem repercussões futuras.

A PF fez operações que apuram contratos da prefeitura. Isso afeta suas alianças?

De jeito nenhum. Tive um encontro rápido com o prefeito. Não tem nenhum funcionário da prefeitura nesses casos. É uma coisa muito esquisita que, na véspera da eleição, venha uma operação iniciada pela CGU (Controladoria-Geral da União), liderada por uma pessoa que é nomeada diretamente pelo Bolsonaro

PUBLICIDADE Como vê a nacionalização do debate na campanha?

O contexto nacional deve ser levado em consideração, mas nós estamos discutindo Fortaleza, que tem suas dores, suas questões. O candidato adversário tem um discurso dúbio. Eu brinco muito aqui com essa história: é como uma parceria público-privada. No privado, ele diz que é Bolsonaro desde que nasceu; no público, ele faz esse jogo duplo: às vezes diz que é, às vezes diz que não é. Eu acho que o Bolsonaro não vai gostar disso não, ele (Wagner) vai acabar ficando só.

Você tem o apoio de Ciro e Cid Gomes, mas não usa imagens deles nas suas propagandas. Por quê?

Essa mesma crítica dos adversários era feita quando o Roberto Cláudio apareceu e ele hoje é um líder, transformou Fortaleza. A mesma crítica apareceu com o governador Camilo Santana (PT). Eu creio que é uma crítica reducionista. Nosso grupo, de que eu me orgulho de fazer parte, é impessoal. Nós temos um legado, basta prestação de contas. O Ceará hoje é referência em educação no Brasil todo, na transparência, na gestão fiscal. E é uma campanha local. Eu era desconhecido e tínhamos que usar o tempo para me tornar conhecido e me mostrar como um dos que ajudou na gestão de Roberto Cláudio, que tem aprovação com ampla maioria.

PUBLICIDADE Capitão Wagner: ‘Não sou afilhado de Bolsonaro, como ele é dos Ferreira Gomes’ Candidato do Pros à Prefeitura de Fortaleza diz que apoio do presidente será bem-vindo na campanha e defende anistia para policiais envolvidos no motim de fevereiro O candidato do PROS à Prefeitura de Fortaleza, Capitão Wagner Foto: Reprodução / Facebook PUBLICIDADE  

Como combater a desigualdade social, um dos maiores problemas de Fortaleza?

Essa desigualdade é fruto da grande corrupção aqui na nossa cidade. Tivemos o escândalo da compra de respiradores, do hospital de campanha, apreensão da PF nesta semana de R$ 2 milhões em dinheiro vivo com um fornecedor da prefeitura. Nossa intenção é, em parceria com o setor produtivo, trabalhar para que a gente possa gerar emprego e renda. No momento inicial a gente vai ter que ter um olhar muito mais assistencial para garantir a segurança alimentar das pessoas, através de cestas básicas e alimentação de qualidade nas escolas.

A cidade também é uma das mais violentas, como mudar?

A responsabilidade é compartilhada e o município tem que fazer sua parte. A gente conhece várias cidades no Brasil que conseguiram vencer essa guerra contra a violência a partir de ações municipais, como São Bernardo do Campo e Diadema. Nós vamos implementar um sistema de videomonitoramento e reforçar o efetivo da guarda municipal, treinar, capacitar, dar uma farda digna, um armamento para que eles possam se defender e defender o cidadão.

Como prefeito, qual seria a relação com o governador Camilo Santana (PT)?

Ele nunca me atacou antes, só agora na véspera da eleição com medo da gente ganhar do candidato que ele apoia. Agora na pandemia eu destinei mais recursos para o estado do Ceará que alguns deputados que são da base dele.

PUBLICIDADE O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, pediu que o presidente Jair Bolsonaro fosse ao Rio fazer campanha. O senhor também o quer em Fortaleza?

Minha relação com o presidente é de apoio, mas de entendimento que eu tenho que divergir quando eu não não acredito em alguma pauta. Meus posicionamentos no Congresso mostram isso. Logicamente, você ter o apoio do governo federal, ter acesso aos ministérios, ao próprio presidente é importante. A vinda dele aqui ao Ceará, se for oportuna para ele, vai reforçar ainda mais para a população que a gente tem proximidade com o governo federal para buscar recursos e investir na segurança, na saúde e na educação. Então é muito bem-vindo.

O senhor enfrenta resistência por ser apoiado por ele?

Na verdade, eu não sou candidato do Bolsonaro. Em 2016, tirei 47% dos votos, e não tinha Bolsonaro. Fui o vereador mais votado, o deputado federal mais votado da história do Ceará. O apoio do presidente é, sim, bem-vindo, mas não posso dizer que sou afilhado político dele, como o Sarto é dos Ferreira Gomes. Quem escolheu o Sarto como candidato foi o Ciro, na última hora. A minha diferença para ele é essa: eu tenho autonomia e não tenho padrinho político.

PUBLICIDADE O senhor é questionado por sua atuação nos motins. Acha que os policiais que participaram são criminosos?

Eles têm dito que eu liderei nos dois momentos, em 2012 e 2020. Já tivemos o ex-ministro Sergio Moro dizendo que a minha participação foi no sentido de apaziguar, de resolver o problema em 2020. O fato de 2012 foi anistiado pela Dilma. Se há anistia, não há crime.

Por que propôs anistia agora?

Entendo que houve excessos de ambas as partes. A gente teve um senador (Cid Gomes) que pegou uma retroescavadeira e tentou passar por cima dos manifestantes. Como eu sei que ele não vai ser punido, então não é justo punir policial e deixar isento o senador.