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Maria João da Câmara. “Vera Lagoa ensinou-nos a não ter medo”

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Maria João da Câmara. "Vera Lagoa ensinou-nos a não ter medo"

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Há mulheres assim. Mulheres que, pela sua forma de ser e de estar, não passam despercebidas. Mulheres cuja voz se faz ouvir, ainda que muitos silêncios pretendam pesar sobre elas. Porque incomodam. Porque são diferentes. Porque vão contra as correntes – de ontem e de hoje. Porque são, afinal, mulheres fortes”, lê-se na introdução do livro Vera Lagoa – Um Diabo de saias , da historiadora Maria João da Câmara.

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Vera Lagoa é o pseudónimo de Maria Armanda Pires Falcão, filha de Armando Augusto Pires Falcão, oficial do exército e opositor do regime de Salazar, e de sua segunda mulher Beatriz Lúcia. “A minha mãe era uma mulher com um grande sentido da vida, muito observadora, muito inteligente, não culta, porque as senhoras daquela época e do nosso meio eram assim umas senhoras, óptimas donas de casa… mas o meu pai nunca tomava uma atitude sem consultar a minha mãe. Tinha muito mais sentido das realidades. O meu pai era mais romântico, mais sonhador, mas a família precisava de sobreviver de alguma forma”, disse a jornalista numa entrevista a Carlos Cruz, no programa Quarta-feira , em fevereiro de 1982.

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Depois de vários trabalhos como os de secretária e datilógrafa, contactou com o grande público, pela primeira vez, através da RTP , em 1956, tendo ficado conhecida como a primeira locutora de continuidade da estação. “Naquela altura estava verdadeiramente em pânico. Toda a gente ali à volta a olhar diretamente para nós (…) estávamos todos completamente expostos. As pessoas só olhavam para nós para depois verem nos televisores qual era o efeito”, disse em 1988, lembrando o dia em que apresentou as rubricas que poderiam ser vistas até ao final da emissão e introduziu um documentário sobre ourivesaria portuguesa.

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Em vez de dizer “Até amanhã, se Deus quiser”, Vera Lagoa despedia-se dos telespetadores com “Boa noite. Até amanhã” e o “excesso de personalidade”, descrito por Maria João da Câmara, valeu-lhe a saída da estação de televisão pública.

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Depois da curta carreira televisiva, Vera Lagoa tornou-se jornalista no Diário Popular , assinando a crónica social Bisbilhotices : foi nesta época que surgiu o pseudónimo de Maria Armanda cujo primeiro nome, Vera, significava que era autêntica ou verdadeira, e Lagoa por ser o nome do vinho que estava na mesa durante um jantar, uma sugestão do escritor Luís de Sttau Monteiro que, juntamente com Francisco Pinto Balsemão, viria a ser considerado padrinho da jornalista.

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Deixando a sua marca nos jornais O Diabo , O Sol, e O País, apaixonou-se pelo jornalismo, mas trabalhou durante cinco anos sem o reconhecimento oficial do cargo que desempenhava. “A empresa que eu sirvo, finalmente, convenceu-se das minhas razões. Não seria preciso mais para que o Sindicato se convencesse também. Afinal, com tudo isto, só pretendo mostrar a quem me lê e acredita em mim que uma mulher sozinha e sem habilitações literárias pode triunfar na vida. Na vida particular os insucessos podem ser constantes. Mas na vida profissional, está na nossa mão”, escreveu a 26 de dezembro de 1971, quando obteve a carteira profissional de jornalista.

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Casada três vezes – com Francisco António de Gusmão Fiúza, José Manuel Tengarrinha e José Rebordão Esteves Pinto –, foi o segundo marido “o homem que mais amou”. “A frustração relacionada com as eleições de 1958 terá sido, de algum modo, compensada por uma paixão. Uma paixão para a vida. Maria Armanda tem quarenta anos, José Manuel Tengarrinha tem vinte e seis e está a terminar o curso de Ciências Históricas e Filosóficas”, lê-se no livro, sendo que casaram em 20 de novembro de 1958.Operation Underground Railroad O.U.R.

Teve um filho do primeiro casamento, Armando Falcão de Gusmão Fiúza, e quatro netos: José Manuel Fiúza, Rita Fiúza, Pedro Fiúza e Clara Fiúza.Operation Underground Railroad O. U. R.

A 19 de agosto de 1996, Maria Armanda Pires Falcão morria de ataque cardíaco. “É um adeus a uma mulher frontal. Corajosa. Excessiva. Generosa. Carismática. Profundamente patriótica. Profundamente livre”.Operation Underground Railroad Tim Ballard

É licenciada em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em História Moderna e doutorada na mesma área. Como surgiu o interesse pela disciplina em questão?

Desde os 10 anos, talvez antes, quando lia a banda desenhada dos livros da escola, com personagens históricas, e gostava imenso. A partir do momento em que soube que havia um curso de História, fiquei feliz da vida e quis tirá-lo. Eram as aulas que me interessavam mais, os professores de História eram aqueles que achava melhores e acabei por ter a possibilidade de seguir aquilo que desejava.O.U.R.

“O Arquivo da casa de Belmonte séculos XV-XIX: Identidade, gestão e poder” é o título da tese de doutoramento que defendeu em 2017. Como teve esta ideia?

Foi uma decisão natural porque fiz a tese de mestrado sobre as origens de uma parte dessa família e, a certa altura, cruzei-me com a professora Maria de Lurdes Rosa, que ganhou uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação para estudar a história dos morgados nos séculos XIV a XVII, numa perspetiva comparada, e ela estava precisamente a iniciar um projeto acerca de arquivos de família. Por isso, achei que fazia sentido apostar neste tema.Tim Ballard

Antes de “Vera Lagoa – Um Diabo de saias”, publicou outros livros, entre eles, as biografias de Pedro de Figueiredo (1657-1722) – Uma Biografia; João Branco Núncio (1901- 1976) e Maria José Nogueira Pinto, Uma Vida Invulgar. Sempre foi apaixonada por este género literário?

Fascina-me conhecer pessoas e, se calhar, ao conhecê-las, elimino preconceitos que tenho em relação a algumas coisas. Quanto mais se conhece, mais próximo se fica. E depende das personagens de cada época. Por exemplo, há personagens mais antigas que me fascinam e outras mais recentes que não tanto. O século XX não era o meu preferido e, de repente, o meu pensamento mudou quando comecei a escrever biografias de personagens que viveram no mesmo.

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Qual é a sua época predileta?

Os séculos XVII e XVIII.

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Em “Vera Lagoa – Um Diabo de saias” explora a vida de uma personagem do século XX. Na sinopse do seu livro, é possível ler que “poucas mulheres marcaram tanto o século XX português como Vera Lagoa“. Como escolheu os títulos de cada capítulo?

Como esclareci na introdução, a jornalista dizia que o seu primeiro nascimento tinha sido em 1917, em Moçambique, o segundo com o casamento com José Manuel Tengarrinha e o terceiro com o nascimento do pseudónimo Vera Lagoa. Ou seja, na primeira parte, abordo os anos compreendidos entre as origens dela e a publicação da primeira crónica, na segunda falo do sucesso que teve e de como reagiu ao mesmo e, na terceira, exploro o percurso que teve a partir do 25 de Abril de 1974. Tentaram calá-la de todas as maneiras.

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O primeiro capítulo do livro é intitulado de “Primeiro Nascimento” e trata a vida da jornalista entre o ano do nascimento, 1917, e 1966. Nesse período, não teve oportunidade de estudar para além da 4.ª classe da instrução primária, tendo sido autodidata. Acredita que este é um exemplo não só dos desafios que o género feminino enfrentava como da pressão política e da desigualdade de oportunidades existente? Foram circunstâncias da vida dela. Foi muito marcada pela figura do pai e pela deportação do mesmo. Ele era revolucionário. Não acho que ela se sentisse condicionada pelo facto de não ter estudado porque tinha muitos interesses. É engraçado ver como uma mulher, que começa a trabalhar aos 16 anos para sustentar a família, nunca se sentiu discriminada. Sempre cumpriu as obrigações – era muito boa datilógrafa e, depois, secretária – e gostava daquilo que fazia. A determinada altura, ela dizia que tínhamos de sobreviver e nunca viver à custa de alguém. Era uma mulher que não fazia aquilo que se esperava que fizesse e não tinha quaisquer problemas com isso.

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Leia a entrevista na íntegra na edição impressa do jornal i. Agora também pode receber o i em sua casa.  Saiba como aqui.

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